Eletroquimioterapia: poderosa contra o câncer, ainda pouco conhecida entre os veterinários


Cães e gatos vivem mais nos dias de hoje, o que faz com que doenças degenerativas e crônicas sejam diagnosticadas com maior frequência. A Medicina Veterinária tem evoluído bastante, e temos conhecimento e acesso a exames que nos permite diagnosticar um grande número de doenças, hoje em dia, que possivelmente não eram diagnosticadas há algumas décadas. E, infelizmente, cada vez mais aumentam os casos de cães e gatos com tumores e câncer de maneira geral.


Antes de tudo gostaria de diferenciar tumor de câncer. Tumor, por definição, é qualquer aumento de volume que não deveria estar lá. Pode ser benigno ou maligno e de qualquer causa, mesmo as não neoplásicas (não “tumorais”, como se diz vulgarmente). Considerando que esse aumento de volume foi analisado e diagnosticado como neoplásico, popularmente chamado de tumoral, só será chamado de câncer quando for maligno, com possibilidade de espalhar para outros locais formando as chamadas metástases, comuns em pulmão, baço, fígado e ossos, por exemplo.


Isso significa que uma cadela, por exemplo, com um tumor em mama, não necessariamente tem câncer de mama, caso o tumor seja retirado por completo e não seja maligno. Se quiser saber mais sobre tumores de mama em cadelas leia os textos Prevenção do câncer de mama em cadelas e gatas, Câncer de mama em gatas e cadelas: diagnóstico e tratamento, Tumores de mama em cadelas, o que eu preciso saber


Pois bem, considerando que aquele aumento de volume foi diagnosticado como neoplásico (”tumoral”) há algumas formas de tratá-lo, sendo que a mais comum e de melhor resultado é a cirurgia. Digo de melhor resultado por ser mais a radical e efetiva: retirou tudo, acabou o problema. Claro, estou sendo simplista aqui, apenas para explicar as possibilidades.


Quando se planeja a retirada cirúrgica de um tumor sempre se considera que podem haver infiltrações do tumor alguns centímetros além da massa que conseguimos ver, e isso é considerado a margem cirúrgica da cirurgia oncológica. O que quero dizer é que não se pode cortar exclusivamente onde está o tumor que vemos, é necessário retirar alguns centímetros além dele, e algumas vezes isso não é possível de ser feito simplesmente por não haver tecido suficiente para ser retirado. Se isso for feito, pode resultar em cirurgia com resultado mutilante, como a retirada de um membro (amputações), partes da boca (maxilectomias / mandibulectomias) dentre outras, que às vezes são necessárias. Nesses casos algumas técnicas de combinação de tratamento podem ser de grande utilidade, como a eletroquimioterapia por exemplo, que pode ser utilizada juntamente com a cirurgia ou até como tratamento único.


Na foto ao lado veja o tamanho da parte visível de um tumor e, circulado em preto, a área mínima que pode ser retirada em uma cirurgia tradicional (sem eletroquimioterapia) - muitas vezes a área retirada é muito maior.





Mas afinal, o que é eletroquimioterapia?


Eletroquimioterapia é um tratamento localizado para tumores de qualquer tipo, tanto benignos quanto malignos, que pode ser aplicada isoladamente ou em combinação com quimioterapia e cirurgia.


A técnica consiste na aplicação de um quimioterápico, por via endovenosa ou intratumoral, com o paciente sob anestesia geral. Em seguida, com a utilização de equipamento específico para esse fim, são aplicados pulsos elétricos no tumor ou nos bordos da cirurgia, com a intenção de fazer com que poros (“buracos”) se abram momentaneamente nas células tumorais, de forma que o quimioterápico aplicado possa penetrar na célula doente, milhares de vezes mais do que se os pulsos elétricos não tivessem sido aplicados. Uma vez dentro da célula tumoral a medicação pode iniciar sua ação, com a intenção de causar a morte celular, o que no caso dos tumores é totalmente desejável (queremos que o tumor morra mesmo). É uma técnica segura, eficaz, que pode promover até 100% de morte das células tumorais por aplicação.



A figura ao lado mostra o eletrodo utilizado para aplicação dos pulsos elétricos em um tumor maligno no nariz de um gato branco, sob anestesia geral.



É como uma cauterização?


Não, não há efeito térmico nenhum, então não ocorre uma cauterização como algumas pessoas perguntam, o tumor não é “queimado”.


Importante explicar que o que mata a célula tumoral é o quimioterápico aplicado, e não a corrente elétrica. Os pulsos elétricos servem apenas para fazer com que a medicação entre na célula tumoral, mas é o quimioterápico que causa a morte celular. Tanto é verdade que, se por acaso os pulsos elétricos forem aplicados sem a administração da medicação, não acontece absolutamente nada no tumor.


Quando a eletroquimioterapia é indicada?


A eletroquimioterapia é utilizada com mais frequência para:


Tratamento de tumores em pele, principalmente em locais de difícil retirada com margem cirúrgica adequada, como membros, próximo aos dedos, coxins (“almofadinhas” que ficam embaixo das patas) e tumores em cabeça e pescoço;


Tratamento de tumores em área extensas, como câncer de pele em abdome ou costas de cães como PitBulls, Bulldogs e Boxers, por exemplo.


Tratamento de tumores em boca;


Tratamento de tumores em região próxima ao ânus;


Tratamento de tumores em face de gatos, comuns de aparecer nas orelhas, nariz e próximo aos olhos;


Durante a cirurgia (transoperatório), quando não há margens suficientes para retirar completamente o tumor (o cirurgião retira o que ele pode retirar e é realizada eletroquimioterapia nos bordos e profundidade da ferida cirúrgica, antes da sutura ser realizada).


Pode ser realizada também depois que a cirurgia já foi feita, quando o laudo da análise feita pelo laboratório (chamada de histopatológico) nos diz que o tumor não foi retirado completamente (vem escrito como "margens comprometidas", o que significa que ficaram células do tumor ainda no paciente). Nesse caso a eletroquimioterapia pode ser utilizada para matar as células tumorais que restaram no paciente, após a cirurgia incompleta.


Eletroquimioterapia dói?


Uma outra pergunta comum dos clientes é se o tratamento é dolorido, ainda mais quando falo em usar agulhas e corrente elétrica. Como o tratamento é realizado também em seres humanos, nada melhor do que perguntar para as pessoas que foram submetidas ao tratamento o que elas sentiram. Pessoas? Sim, apesar de não ser muito conhecida ainda aqui no Brasil há mais de 100 centros médicos na Europa que tratam seres humanos com eletroquimioterapia. E com isso há um sem número de pesquisas a respeito em seres humanos (em animais também), avaliando não só a eficácia da técnica mas o conforto de ser realizada em pessoas.


Em um desses textos, um grupo de pesquisadores conversou com mais de 60 pacientes humanos que foram tratados com eletroquimioterapia, perguntando quão forte era a dor do procedimento realizado, utilizando uma escala de dor que variava de zero (nenhuma dor) a 100 (pior dor imaginável). Para as pessoas tratadas com eletroquimioterapia sob anestesia local, a média de sensação de dor relatada foi de 35 imediatamente após o tratamento, caindo para 20 dois dias depois. Já as pessoas tratadas sob anestesia geral a média de dor foi de apenas 10, dois dias após a eletroquimioterapia, o que me parece absolutamente aceitável.


Sei que nossos pacientes de quatro patas não falam e portanto não temos como saber ao certo se sentem dor, se está doendo muito ou pouco, mas considero que a dor deles deve ser similar a que os seres humanos relataram.


Em cães e gatos, mesmo depois de várias sessões nenhum sinal de comprometimento do estado geral de saúde decorrente da eletroquimioterapia costuma ser observado, sendo que após as sessões a maioria dos animais apresenta comportamento normal e ausência de sinais de dor. De qualquer forma costumo sempre prescrever analgésicos e anti-inflamatórios, pelo menos na primeira semana, por garantia. Pelo sim pelo não prefiro ter certeza de que ficarão confortáveis.



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