Não quero que meu cão sofra (parte 1)

Atendendo na especialidade da Oncologia Veterinária é relativamente frequente eu precisar dar más notícias às famílias, no que tange ao cão ou gato de estimação ter uma doença incurável e potencialmente fatal. Não é um momento fácil, é necessário muita delicadeza, tato e empatia do veterinário oncologista para informar a situação real do paciente, suas chances e opções de tratamento, dentro de um momento cercado de dúvidas, dores e emoções da família. Definitivamente não é algo que aprendemos na faculdade nem em nenhum curso de especialização que eu tenha feito, mas de grande importância e que, de fato, somente a maturidade e experiência profissional nos ensina.


Por conta disso, algumas preocupações dos familiares são bem comuns no meu dia a dia, em especial quando se confirma o diagnóstico de doença grave nos cães e gatos. Questionamentos sobre dor, sofrimento, tempo de vida e, por fim, morte assombram as famílias dos pets com suspeita de câncer, e é um assunto, apesar de difícil, extremamente importante de ser abordado para o bem estar do paciente.




Uma das expressões mais comuns que me são endereçadas são em relação ao sofrimento. "Doutora, não quero que meu bichinho sofra". Sentimento genuíno, compreensível e comum a quase todas as famílias, trazido quase que diariamente nos meus atendimentos.


De fato o sofrimento do paciente é algo que ninguém quer, nem a família, nem eu ou nenhuma das clínicas em que atendo, independente de qual o diagnóstico e quais as condições clínicas daquele pet. Mas as definições de o que é sofrimento, se o cão ou gato está sofrendo e, nesse caso, se está sofrendo muito ou pouco, depende muito das percepções pessoais de cada um, tanto do veterinário oncologista como da família responsável pelo paciente.


Diante de um diagnóstico de doença grave nosso primeiro pensamento é se podemos curar o paciente e, caso isso não seja possível, no que podemos fazer para lhe dar conforto e qualidade de vida pelos dias que lhe restam. Logicamente que quero que meus pacientes vivam bem e felizes por muitos e muitos anos mas, mais importante do que o tempo de vida que eles têm, me interessa mais a qualidade com que esse tempo será vivido.



As definições de sofrimento variam muito de pessoa para pessoa, e isso precisa ser levado em consideração.

Do meu ponto de vista, um animal livre de sofrimento é aquele que está se alimentando de maneira adequada (quantidade e qualidade), bebe água, consegue fazer suas necessidades e se encontra livre de frio, stress e dor. É fato que em algumas situações não conseguimos impedir que um cão ou gato sinta dor por algum tempo, como pode acontecer após certas cirurgias. O importante é que essa dor seja minimizada e ocorra pelo menor tempo possível.


Como comentei acima, após alguma cirurgia, seja ela qual for, é comum que haja alguma dor, ainda que o pet esteja sob efeito de anti-inflamatórios e analgésicos. Lembro-me bem quando eu retirei os meus dentes do siso, tomava um "caminhão" de analgésicos fortíssimos e anti-inflamatórios prescritos pelo médico (por praticidade fiz o procedimento com um médico buco-maxilo e não com cirurgião dentista), e não posso dizer que não senti dor alguma, aliás doeu bastante por uns bons dias, mesmo estando de repouso e completamente medicada. Costumo dar esse exemplo para mostrar que, mesmo sob os cuidados de profissionais competentes e com todas as medicações disponíveis, às vezes alguma dor irá existir, e a família precisará se conformar com ela (adianto que a maioria dos cães e gatos se conformam com essa dor relativa bem mais rápido do que nós mesmos).



O que quero dizer com tudo isso é que, em alguns casos, mesmo que façamos tudo o que está em nosso alcance, não é possível evitar 100% o desconforto da dor: o que fazemos é deixá-la no mínimo tolerável pelo menor tempo que conseguirmos.


Mas, afinal, como saber se meu pet está sentindo dor? ele vai chorar? vai gemer?


Na grande maioria das vezes...... não. Cães e gatos tem formas diferentes (e para nós, às vezes bem estranhas) de lidar com a dor, e precisamos estar atentos para identificar esses padrões.


Algumas vezes se movem menos, levantam e andam menos até os potes de água e comida ou até aos locais de eliminação de fezes e urina, simplesmente porque dói para levantar e para andar. Alguns tem intestino preso, ou retenção urinária, porque ficar na posição para fazer xixi ou cocô também pode ser dolorido. Outros comem menos, porque quem sente dor quer mais é ficar no seu canto mesmo (eu, com dor de cabeça, mesmo sentindo fome, não quero nem saber de chegar perto de comida).


Há relatos de alguns cães que costumam olhar repetidas vezes para o ponto de dor: se estão com dor no abdome por exemplo, ficam olhando várias vezes seguidas, como se quisessem "nos mostrar" onde está doendo. Cães com dor nos membros também podem ter o comportamento de lambedura no local da dor, o que pode, inclusive, causar novas feridas, pelo atrito constante da língua com a pele. Alterações na postura e no padrão respiratório também podem acontecer em dores mais agudas; o importante, de maneira geral, é a família ter um bom relacionamento com o veterinário oncologista responsável pelo tratamento e o avisar sempre que algo diferente estiver acontecendo com o paciente, para que as medidas necessárias sejam tomadas o quanto antes.


De maneira geral lembre-se: você é o melhor que poderia ter acontecido ao seu pet e ele será eternamente grato pelos bons momentos que passaram juntos. Se agora ele passa por um momento difícil segure em sua pata e vá em frente, dê-lhe a chance de te mostrar até onde ele quer (e suporta) ir. Tenha certeza de que naturalmente as respostas aos seus questionamentos virão da forma como você menos imaginar.


No próximo texto falarei sobre o medo da morte do pet e como lidar com ele clique aqui




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