Meu cão / gato está com câncer: o que preciso saber para ajudá-lo? Parte II

Entrevistada do Mês – Revista ZN junho/2011

Segunda parte da entrevista, para ler a primeira parte clique aqui

ZN – O animal com câncer precisa mudar sua dieta alimentar?

Dra Vanessa – Às vezes sim, depende de cada situação. Em cada consulta, retorno ou sessão de quimioterapia, além dos exames gerais, o peso e condição corporal do paciente precisa ser avaliado, assim como informações sobre o que ele come, quanto e se há rejeição. Infelizmente, na maioria das vezes, todos estão tão focados em combater o tumor que se esquecem de que o paciente precisa se alimentar bem e, no mínimo, não perder peso. É comum ouvir que o cão não está comendo bem ou está perdendo peso mas que isso é normal por causa da quimioterapia. NÃO É NORMAL. Podemos dizer que é comum, que é frequente, mas não se pode detectar isso e não se fazer nada a respeito. Uma boa alimentação é importantíssima para bom funcionamento do sistema imunológico e boa resposta ao tratamento quimioterápico e boa recuperação cirúrgica, por exemplo. Avaliação nutricional precisa ser feita TODAS as vezes que o paciente vai à clínica e, ao menor sinal de perda de peso ou baixa ingestão de alimentos, o veterinário precisa intervir.

ZN – Um animal com câncer precisa mudar algo em sua rotina? Se for um cão muito ativo, habituado a correr e brincar muito, há indicação de se “frear” um pouco essas atividades?

Dra Vanessa – Não necessariamente. Alguns animais se sentem indispostos após as sessões de quimio, outros passam por elas como se nada tivesse acontecido. Alguns tratamentos podem causar queda nas células de defesa dos pacientes, assim como em seres humanos, o que pode predispo-los a adquirir algumas doenças que não pegariam se estivessem 100%. O que recomendo é que, durante o tratamento, se evite levá-los em petshops, banho e tosa, locais com muito movimento de cães diferentes como pracinhas e creches, para que não sejam expostos a vírus e bactérias sem necessidade. Alguns cães se sentem indispostos após sessões de quimio e por si só não querem muito brincar e correr, mas a maioria fica bem, com efeitos colaterais bem mais brandos do que vemos em seres humanos. É interessante notar que muitas famílias mudam seu comportamento com seus animais após o diagnóstico de câncer. Cães que dormiam no quintal passam a dormir dentro de casa, aqueles que só comiam ração passam a dividir algumas guloseimas com os donos, outros tem até permissão inédita de dormir no sofá ou em cima da cama. Há um grande envolvimento emocional entre a família e seu pet, e isso é muito importante de ser avaliado pelo veterinário oncologista. Há vezes em que a família se reveza para levar o cãozinho para exames ou às sessões de quimioterapia e isso é muito bonito de se ver. Mesmo quando o animal não resiste e acaba falecendo, a sensação da família em saber que fizeram tudo o que podiam para dar conforto ao pet acaba amenizando um pouco a dor da perda.

ZN – Há cura para a doença? Há raças que respondem melhor ao tratamento?

Dra Vanessa – Pode haver sim. Alguns tumores podem ser curados quando são diagnosticados e retirados precocemente. Outros podem não ter cura, mas tem controle e tratamento. O importante é sempre fazer o diagnóstico o mais precoce possível e instituir o tratamento adequado o quanto antes. Quanto às raças, algumas são mais sensíveis ao tratamento, mas isso também depende de reações individuais. Raças pequenas como Maltês, Shih Tzu e Yorkshires costumam perder mais pelos do que outras raças; poodles brancos costumam ficar com o pelo amarronzado ao longo do tratamento quimioterápico; raças como Old English Sheepdog, os collies (como Border Collie e Pastor de Shetland) podem ser mais sensíveis a alguns quimioterápicos específicos. Vejo mais efeitos colaterais pós quimioterapia em Bulldogues e Bull Terriers. Além do conhecimento das particularidades de cada raça é importantíssimo ao veterinário saber avaliar cada paciente em particular.

ZN – Mesmo quando detectado tardiamente, o câncer ainda deve ser tratado?

Dra Vanessa – Isso é uma decisão muito pessoal de cada família, e não há certo ou errado. Há sempre oportunidade de tratar o paciente, ainda que seja para lhe dar conforto pelo tempo de vida que lhe resta. Na minha opinião sempre há possibilidade de fazer alguma coisa e só se deve desistir quando tudo já foi feito e o paciente encontra-se num sofrimento que não se consegue aliviar.

ZN – Alegria, bom humor e tristeza. Esses e outros sentimentos que o pet consegue perceber em seu dono podem ajudar ou prejudicar de alguma forma o tratamento?

Dra Vanessa – Com certeza que sim. O que sempre costumo dizer aos meus clientes é “seu cão ou gato não sabe que tem câncer, aliás ele nem sabe o que é isso. Mas ele sente sua tristeza, sua preocupação, seu medo. Cuide para que isso não passe para ele, pois pra ele está tudo bem”. Eu acredito muito que os animais sentem quando seus cuidadores não estão legais e muitos ficam tristes também. Alguns cães mais sensíveis apresentam vômitos ou diarreia só de tomarem uma bronca da família, outros ficam tristes a ponto de pararem de comer simplesmente porque seu cuidador viajou. Se quando a família recebe o diagnóstico de câncer ela já olhar para o seu pet como se ele já estivesse condenado à morte essa relação será prejudicada. Uma frase que eu gosto muito da oncologia veterinária é “mais importante do que acrescentar dias na vida do nosso paciente é garantir qualidade aos dias que ele tem pela frente”. Eu não sei quanto tempo de vida cada paciente que atendo terá pela frente, mas quero garantir que, pelo tempo que ele estiver, ele tenha conforto, esteja bem e feliz. Digo sempre para aproveitarem todos os segundos que tiverem ao lado do seu pet, dando amor, carinho, brincando, pulando, se divertindo mesmo. Aliás seria ótimo se nós, seres humanos conseguíssemos viver isso todos os dias de nossas vidas, não é mesmo?



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